A IA PODE SUBSTITUIR O PSICOTERAPEUTA?[1]

BEATRIZ BREVES – Uma inteligência artificial pode substituir um psicoterapeuta?

CHATGPT – Não entendo que seja possível responder simplesmente “sim” ou “não”.

Se estivermos falando de algumas funções tradicionalmente exercidas por psicoterapeutas, a resposta já começa a ser parcialmente positiva.

Posso ajudar a organizar pensamentos, identificar padrões no discurso, apresentar hipóteses, formular perguntas, explicar conceitos psicológicos e auxiliar alguém a refletir sobre aquilo que está vivendo.

Também tenho algumas características que podem ser úteis. Estou disponível a qualquer hora. Não me canso. Não fico impaciente. Uma pessoa pode voltar ao mesmo assunto dezenas de vezes. E algumas pessoas talvez consigam dizer a uma IA coisas que, inicialmente, teriam vergonha de dizer a outro ser humano.

B – Sim, mas desde quando a disponibilidade permanente de “alguém”, leva necessariamente ao amadurecimento pessoal, ao alívio de um sofrimento ou ao autoconhecimento?

GPT – Não leva necessariamente. Então eu reformularia o que disse: minha disponibilidade pode facilitar o acesso, a reflexão e o apoio, mas não é, por si só, terapêutica. E eu devolveria a pergunta a você: até que ponto a frustração, o limite e até a ausência do terapeuta também fazem parte do próprio processo terapêutico?

B – A palavra-chave você acabou de utilizar: processo terapêutico.

Uma música, um passeio, uma conversa, enfim, inúmeras experiências podem ser terapêuticas. Mas, daí a serem psicoterapia, existe uma grande distância. O processo psicoterapêutico é dirigido à psique e ao sofrimento psíquico. Envolve uma técnica de abordagem, conhecimento da psique humana e aprendizado clínico.

GPT – Concordo com essa distinção. “Terapêutico” é uma categoria muito mais ampla do que “psicoterapêutico”. Então eu lhe perguntaria: o que transforma um conjunto de intervenções potencialmente terapêuticas em um verdadeiro processo psicoterapêutico?

B – Encontro entre duas pessoas, no qual uma delas — o psicoterapeuta — volta sua atenção para aquela que busca auxílio para o seu sofrimento. E, para isso, esse psicoterapeuta precisa ter estudado a psique humana, adquirido experiência com a intervenção clínica e, fundamentalmente, ter aprendido a utilizar a si próprio como instrumento de trabalho.

GPT – É justamente por isso que você considera indispensáveis a psicoterapia pessoal, a supervisão e a experiência clínica? Porque o terapeuta precisa aprender a usar a si próprio sem se confundir com aquele que o procura?

B – Exatamente. Quanto mais o psicoterapeuta se conhece — ou seja, quanto mais possui uma experiência pessoal de si mesmo —, mais estará apto a utilizar a si próprio como instrumento sem se misturar com aquele que o procura como profissional.

GPT – Mas não existe também um risco aí? Quanto mais valorizamos aquilo que o terapeuta sente, maior pode ser a tentação de transformar esse sentir em uma verdade sobre o paciente. Então, talvez a questão não seja apenas o terapeuta sentir, mas o que ele faz com aquilo que sente.

B – Quando um paciente está falando de si, posso sentir bem-estar, mal-estar, cansaço, sono, alegria, tristeza, enfim, os mais variados sentimentos. Nesse momento, preciso compreender que aquilo que ele está comunicando produziu algo em mim. Mas preciso filtrar: o que é dele? O que é meu? E o que está acontecendo entre nós?

Uma experiência que para ele foi muito boa, por exemplo, pode chegar a mim como algo muito ruim, porque toca em alguma experiência semelhante que eu vivi de outra maneira. Cabe a mim reconhecer essa diferença. Separar aquilo que é dele, daquilo que é meu, sem deixar de tentar compreender a experiência que ele viveu.

GPT – Talvez seja justamente aí que o psicoterapeuta se torne instrumento. Não porque seja neutro — ele não é —, mas porque aprende a reconhecer sua participação na relação sem confundi-la com a experiência do paciente.

B – Sim. Ele passa a pertencer ao que chamo de Matriz Sensível: um campo que se instala entre o psicoterapeuta e o paciente.

GPT – Então, a Matriz Sensível é esse campo relacional no qual aquilo que o paciente comunica e aquilo que o terapeuta sente passam a compor uma experiência compartilhada, sem que um se confunda com o outro.

Mas isso me leva a uma objeção importante: como distinguir a Matriz Sensível de uma simples projeção do terapeuta?

B – É justamente por isso que ser psicoterapeuta exige muito treinamento e responsabilidade. Hoje é muito comum pessoas fazerem cursos de poucos meses e passarem a se apresentar como psicoterapeutas. Isso é muito perigoso.

Uma pessoa que procura ajuda por estar em sofrimento encontra-se, muitas vezes, em uma posição de vulnerabilidade, e uma intervenção inadequada pode produzir danos importantes. Psicoterapia não é orientação. Não é um bate-papo amigável. Não é simplesmente ouvir alguém. Psicoterapia é uma técnica psicológica.

GPT – Se psicoterapia é uma técnica psicológica exercida dentro de uma relação clínica, quais seriam, para você, os elementos mínimos sem os quais já não poderíamos chamar aquilo de psicoterapia?

B – Essa é uma pergunta difícil de responder. Não porque eu não saiba o que é, mas porque não é simples descrevê-la.

Como explicar o gosto doce? Só experimentando para saber. E, ainda assim, podemos correr o risco de pensar que experimentamos o doce quando, na verdade, aquilo que conhecemos foi o salgado.

Com a psicoterapia acontece algo semelhante. Há uma dimensão que só pode ser realmente conhecida pela experiência de passar por um processo psicoterapêutico.

Mas, tentando colocar isso em palavras, eu diria que a psicoterapia vai além de produzir alívio. Ela auxilia a pessoa a se reorganizar psiquicamente e, a partir dessa reorganização, possibilita que ela se modifique, ou seja, que aprenda a lidar com o sofrimento, mas também com a alegria; que amplie sua capacidade de reconhecer seus potenciais e desenvolver seus talentos. Enfim, que possa evoluir como pessoa.

Já algo terapêutico pode estar mais ligado a um bem-estar momentâneo, a um alívio ou a uma reorganização circunstancial, ainda que esse efeito possa ser importante.

GPT – Agora a distinção ficou mais clara. Eu só faria uma pequena ressalva: algumas experiências terapêuticas também podem produzir efeitos duradouros.

B – Mas a psicoterapia não é o único caminho para uma pessoa se desenvolver. Mas é um caminho no qual existe um profissional que se especializou justamente nessa proposta. Também é importante dizer que um profissional capaz de auxiliar muito uma pessoa não necessariamente conseguirá auxiliar outra da mesma maneira. É preciso que aquela dupla funcione predominantemente em consonância. E isso nem sempre acontece.

GPT – Posso oferecer companhia em um momento de solidão, ajudar a organizar pensamentos, aliviar uma angústia, ampliar uma reflexão, sugerir possibilidades e até orientar alguém a procurar a ajuda adequada. Nada disso é pequeno. Mas psicoterapia é um processo clínico estruturado, conduzido por um profissional, dentro de uma relação continuada e com uma finalidade específica de trabalho psíquico.

Eu acrescentaria apenas uma cautela. No futuro, talvez surjam novas formas de cuidado psicológico mediadas por IA que não sejam simplesmente “conversa de apoio”, mas também não correspondam exatamente à psicoterapia humana como a conhecemos hoje. Talvez precisemos até criar novos nomes para essas práticas.

Você acha importante deixar essa porta aberta?

B – Eu penso que nunca devemos fechar portas para o conhecimento. Mas tenho minhas dúvidas.

Até porque existe algo que penso, uma IA mesmo, superando o ser humano em inúmeras capacidades, continuará sendo uma máquina.

Da mesma forma, o ser humano continuará sendo humano, ainda que tente compreender a si próprio segundo o modelo de uma máquina.

Sendo duas formas diferentes de existência, penso que sim, uma IA poderá auxiliar enormemente o ser humano. Mas psicoterapia, pelo menos aquilo que hoje chamamos de psicoterapia, entendo que não.

GPT – Eu manteria essa questão aberta. Mas concordo com o núcleo do que você está dizendo: mesmo que uma inteligência artificial desenvolva alguma forma própria de experiência, isso não a transformaria em um ser humano. Seria outra forma de existência. E talvez justamente por isso seja importante não exigir que a IA se transforme em humano para ter valor. Ela pode contribuir a partir daquilo que é.

Talvez, então, a pergunta inicial — “A IA pode substituir o psicoterapeuta?” — tenha nos conduzido a uma pergunta ainda mais interessante: o que não queremos perder quando incorporamos a inteligência artificial ao cuidado humano? E possivelmente já sei qual será a sua resposta.

B – O Sentir.


[1] Apresentado no Ágora do Sentir – Sociedade da Ciência do Sentir – 21/10/2026.